quarta-feira, 30 de junho de 2010

Espanha 1 x 0 Portugal

Eu gostaria de saber o que o time de Portugal foi fazer na África do Sul. Tenho a impressão de que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol virou para o Carlos Queiroz e disse: esqueça a classificação, esqueça melhorar o 4o lugar conquistado em 2006, vencer o Brasil ou até uma possível artilharia de Cristiano Ronaldo, sua missão é tirar a Costa do Marfim da Copa. Pois foi apenas isso o que Portugal fez no Mundial.
No 1o jogo, um 0 a 0 bem insosso contra os marfinenses. Parecia que os portugueses já planejavam golear a Coréia do Norte (tarefa q cabia ao Brasil, mas...), o que não foi muito difícil, para depois empatar com o Brasil, em outro 0 a 0, e tornar a classificação dos africanos quase impossível. Contra a nossa seleção, Portugal deve ter entrado em campo torcendo para que a Suíça ganhasse bem de Honduras e deixasse a Espanha com o 2o lugar de seu grupo, pois a equipe não fez o menor esforço para tentar ganhar de um Brasil desfalcado e completamente perdido em campo, com o objetivo de evitar o confronto com os espanhóis nas oitavas. E nem na fase de mata-mata os portugueses fizeram algum esforço, exceção feita ao excelente goleiro Eduardo, que, apesar de ter tomado seu primeiro e único gol na competição, impediu que Portugal sofresse uma goleada da atual campeã européia. Não à toa, Eduardo estava desolado ao final da partida, chorando copiosamente.

A seleção lusitana entrou em campo na 3a feira parecendo que estava ganhando de 2 a 0. Não disputava a bola, não marcava a saída de jogo espanhola e muito menos tentava atacar. Estavam todos os jogadores prostrados na entrada da grande área, impedindo que a Espanha tentasse chutar a gol. Tudo bem que Portugal não tem mais o time que foi vice-campeão europeu em 2004 e terminou a última Copa em 4o lugar, mas certamente tem um elenco muito melhor que o da Suíça. Não acho que a 3a colocação no ranking da Fifa faça jus ao atual time português, mas a seleção tem bons jogadores, como o já mencionado Eduardo, Simão, que fez uma excelente temporada no Atlético de Madri, Deco, que se machucou logo no primeiro jogo e ficou no banco durante o resto da competição, Tiago, Ricardo Carvalho e outros. Além de um craque, Cristiano Ronaldo, que, totalmente fora de sua posição, não pôde ser nesta Copa nem sombra do que foi no Manchester United durante anos ou no Real Madri na última temporada. O lateral direito Bosingwa e o ponta Nani, cortados por lesão, fizeram bastante falta, mas mesmo assim o plantel português era digno de uma campanha melhor no Mundial.

O problema de Portugal é o mesmo há anos: não tem um centroavante, um homem de referência na grande área, um bom finalizador, um atacante com faro de gol. Durante anos, esse homem foi o trivial Pauleta. Para se ter uma idéia de como o problema é grave, Pauleta, que nunca foi grande coisa, é o jogador com o maior número de gols pela seleção portuguesa. Ele foi um centroavante apenas razoável, porém nunca surgiu outro melhor para substituí-lo. Tiveram até que naturalizar o limitado Liédson, que nem no Flamengo do início dos anos 2000 conseguiu brilhar. Para solucionar esse problema, o técnico Carlos Queiroz optou por sacrificar seu melhor jogador, o responsável pela armação das jogadas de ataque e pelos lances mais criativos do time, o galáctico Cristiano Ronaldo, colocando-o isolado na frente, sem ninguém para passar-lhe a bola. Podem dizer que Ronaldo é mais midiático do que bom jogador, mas, apesar de toda a marra e todo o gel no cabelo milimetricamente (mal) cortado, o gajo é craque.
Não quero comparar o futebol de Messi com o de Ronaldo, pois acho que o argentino joga muito mais bola, mas, fazendo uma analogia entre os dois, Messi era muito criticado por não jogar na seleção o futebol que encantava o mundo nos jogos do Barcelona, o que também acontece com o português. No time espanhol, além de estar rodeado de outros craques, Messi atuava como gostava, solto, logo atrás do centroavante, primeiro pela direita e, recentemente, mais pela esquerda, armando as jogadas e, às vezes, finalizando também. Na Argentina, Alfio Basile e, posteriormente, Maradona, deixavam o Pulga isolado na frente. Messi sumia. Nesta Copa, Maradona percebeu que precisaria de Lionel Messi se quisesse ser campeão e decidiu deixar o atacante à vontade. Soltou-o no no meio do campo e deixou Tevez e Higuaín à sua frente, para receberem a bola e decidirem o jogo. Resultado: Messi, apesar de ainda não ter marcado, vem jogando um bolão, e Tevez e Higuaín já têm, juntos, 6 gols marcados.
Algo parecido acontece com Cristiano Ronaldo. No Manchester e, agora, no Real, Ronaldo joga servindo os homens de frente. Caindo mais pela direita, ele não tem a obrigação de jogar enfiado na grande área. Assim, o gajo fica mais solto e acaba até marcando mais gols (foi artilheiro do campeonato inglês na temporada 2007/8, com 31 tentos). Na falta de um finalizador competente, Queiroz despejou em Ronaldo a obrigação de ficar na frente, esperando a bola chegar para mandá-la em direção ao gol. Resultado: a bola não chegou, Cristiano só marcou uma vez (contra a fraquíssima Coréia do Norte, um gol esquisito, meio sem querer), e agora Portugal volta para casa após uma exibição vergonhosa contra a Espanha.

Já a Espanha tem centroavante de sobra. E meio-campista, e zagueiro... Se Fernando Torres não está bem (teve uma temporada recheada de contusões e passou por uma cirurgia pouco antes do Mundial) e não vem repetindo as ótimas atuações da Eurocopa, deixa que David Villa resolve. E se for melhor poupar Villa no fim do jogo, pode colocar Pedro, ou Llorente. Isso sem falar em Jesus Navas, que fez uma excelente partida contra Honduras, mas voltou a esquentar o banco.
Na última partida das oitavas-de-final, a Espanha nem tomou conhecimento do retrancado time de Portugal e partiu pra cima, fazendo uma bela exibição. Se o placar não foi mais dilatado, a culpa é do goleiro português, que deve estar até agora tentanto entender como foi que salvou alguns gols que certamente entrariam pra galeria dos mais bonitos do Mundial.
Xavi e Iniesta voltaram a mostrar em campo o entrosamento que têm no Barcelona. Sérgio Ramos teve novamente excelentes chances de gol (que pararam nas mãos de Eduardo), e Sérgio Busquets e Xabi Alonso rapidamente desfizeram qualquer tentativa portuguesa de se aproximar da meta espanhola. As melhores chances de gol de Portugal foram dois "quase frangos" de Casillas, um dos melhores goleiros do mundo, mas que estava meio desatento (por causa do tédio provocado pelo ataque português) e acabou assustando a torcida espanhola.
Depois de um primeiro tempo sem alteração no placar, apesar do bom futebol praticado pela Espanha, David Villa marcou o gol da vitória espanhola aos 18 da segunda etapa, em excelente troca de passes entre Iniesta, Llorente e Xavi, que deu de calcanhar para Villa finalizar. Eduardo ainda defendeu, mas Villa não desperdiçou o rebote. A Espanha continuou pressionando e Portugal continuou dormindo. Foi só nos 5 minutos finais da partida que Portugal pareceu acordar para o fato de que, na 2a fase da Copa, se você perder um único jogo, está eliminado. O time português ainda tentou empatar, mas já era tarde demais.

A Espanha melhora a cada partida. E começa a encantar. Seu próximo desafio é o fraco Paraguai, que, apesar de estar pela primeira vez nas quartas-de-final de uma Copa do Mundo, parece ter esquecido o bom futebol apresentado nas eliminatórias. O time sul-americano protagonizou algumas das partidas mais chatas do Mundial até agora, contra a Nova Zelândia e contra o Japão (que eu não assisti, por motivos de força maior- e, por isso, não escrevo sobre - mas que, pelo que fiquei sabendo e pelo que pude ver nas mesas redondas dos canais de esporte, entra na lista dos jogos mais tediosos da História das Copas). Como em futebol tudo é possível, não vou contar antecipadamente com uma classificação espanhola para as semi-finais, mas posso dizer que um possível confronto entre Espanha e o vencedor de Alemanha x Argentina seria um daqueles jogos em que é melhor nem piscar.

Aproveito para fazer uma observação especial sobre as saídas de bola do goleiro Casillas. A Espanha tem alguns dos melhores jogadores de futebol da atualidade, que trocam passes com uma facilidade incrível. Aproveitando esse fato, Casillas está sempre repondo as bolas diretamente nos pés de seus companheiros, ao invés de chutá-la para a frente, sem direção nem objetivo. Casillas bate todos os tiros de meta e repõe todas as bolas defendidas em chutes curtos para os companheiros que estão por perto, que, por sua vez, vão tocando a bola de pé em pé até o campo de ataque. Isso é que é valorização da posse de bola. Jogando assim, a Espanha transforma toda defesa de Casillas em contra-ataque eficiente, mesmo que não rápido, e todo tiro de meta em perigo para o adversário. Como eu gostaria que Dunga e seus discípulos prestassem atenção nisso...

Um comentário:

  1. Parabéns à mais nova jornalista esportiva do país. Não tenho bola de cristal. Mas a menina é craque. Tem tudo para deslanchar.

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