domingo, 4 de julho de 2010

Holanda 2 x 1 Brasil

Estamos mal acostumados. Principalmente a minha geração.
A primeira Copa de que me lembro perfeitamente foi a de 1990. O Brasil tinha um time fraco e, em sua melhor exibição, perdeu para a Argentina de Maradona e Canniggia nas oitavas de final, por 1 a 0. Antes disso, quartas de final em 86, 2a fase em 82 (o sistema de disputa era diferente), semifinais em 78 e 74. E depois de 90, só alegrias. Título em 94, vice em 98 e outro título em 2002.
Quando eu era criança, achava que nunca veria o Brasil ser campeão. Fazia 24 anos que o Brasil não ganhava um título mundial e havia tantas seleções com as quais competir: Alemanha, Argentina, Itália... Seria apenas normal se o próximo título demorasse mais uns 24 anos pra sair, ou mais... Mas veio a Copa de 94, recheada de seleções fracas e disputada sob um calor que só os brasileiros pareciam suportar. Quatro anos depois, aí sim tínhamos uma seleção competitiva, além do melhor jogador do mundo, em seu melhor momento. Mais uma vez os adversários não estavam bem, mas a apatia que tomou conta da seleção brasileira no dia da final, por motivos até agora ainda não satisfatoriamente explicados, nos custou o penta. Em 2002 eu já comecei a assistir a Copa confiante de que seríamos campeões. Os adversários estavam melhores do que antes, mas foram ficando pelo caminho. Me lembro de, a cada dia, colocar na porta da geladeira um cartaz diferente, à medida que nossos rivais iam ficando pelo caminho: "Adieu, Les Bleus", "Adiós, Hermanos", "Ciao, Azzurra"... Quando passamos pela Inglaterra, não tinha como o título não ser nosso. E assim ficamos mal acostumados.
Não se pode ganhar tudo sempre. E uma Copa do Mundo tem, pelo menos, umas 6 seleções que realmente disputam o título. O Brasil é só uma delas. Pra mim, temos que ir sempre até, no mínimo, as quartas de final. Parar nas oitavas (ou na 1a fase) é muito vergonhoso (às vezes, a maneira como somos eliminados, mesmo nas quartas, tb é vergonhosa, mas isso são outros quinhentos).

Faz 2 Copas que paramos nas quartas... Em 2006 o melhor time do mundo, com os melhores jogadores do mundo, tinha uma comissão técnica frouxa e nenhum conjunto. A única partida em que jogou bem, contra o Japão, teve os jogadores reservas como destaque. Era uma tragédia pronta para acontecer, mas sempre adiada por lampejos individuais de Zé Roberto ou pela fraqueza dos adversários. Contra nosso primeiro concorrente de peso - que tinha um time bem ruizinho, mas um craque sem igual, Zidane - o Brasil cedeu.
A mesma coisa acaba de acontecer em 2010. Coréia do Norte, Costa do Marfim, um Portugal totalmente desmotivado, Chile... Até enfrentarmos a Holanda e a Copa finalmente começar. Ou, no nosso caso, terminar. Os chavões de que "o Brasil joga bem contra seleções mais fortes" e de que "a Seleção costuma crescer ao longo da competição" até pareciam estar se concretizando no primeiro tempo, mais foram por água baixo na segunda etapa. O Brasil jogou duas partidas completamente diferentes em apenas 90 minutos. E, em campo, foi o reflexo de seu destemperado, nervoso e limitado técnico.

Como treinador, Dunga mostrou ser exatamente o que foi como jogador: limitado, grosso, retranqueiro e sem a menor criatividade. Contratado para ser um líder perante seus jogadores, acrescentando à Seleção a determinação que faltara em 2006, Dunga se mostrou um péssimo motivador. Maicon, Lúcio e Gilberto Silva, dentro de campo, pareciam ter maior influência sobre seus companheiros que o técnico, no banco de reservas. Além disso, na partida contra a Holanda, ficou bastante visível como o nervosismo do treinador era passado aos jogadores. A partida foi extremamente truncada, e o Brasil só não cometeu mais faltas que no jogo contra a Costa do Marfim.
Alertado contra as jogadas de Robben pela direita, Michel Bastos, tentando desesperadamente pará-lo, foi responsável por 4 das 20 faltas cometidas pelo Brasil, todas duríssimas, tendo sido advertido pelo árbitro duas vezes antes de ser punido com o cartão amarelo. Pela primeira vez em toda a competição, Dunga fez uma troca correta e substituiu o lateral esquerdo por Gilberto, antes que Michel fosse expulso. Sob o comando de Dunga, até o centrado Kaká perdeu as estribeiras e recebeu um recorde de 3 cartões amarelos.

O Brasil entrou em campo no primeiro tempo confundindo motivação com nervosismo. Após um início de jogo com posse de bola holandesa, a seleção canarinho se encontrou e passou a marcar a saída de bola do adversário. Felipe Melo, surpreendemente, achou Robinho livre no meio da fraca defesa holandesa. O atacante recebeu o lançamento e chutou de primeira para fazer o gol brasileiro. Depois, só deu Brasil. Kaká deu um belo chute para defesa incrível de Stekelenburg e, no último minuto, Maicon também deu trabalho para o goleiro numa bomba de fora da área, mas o juiz não deu o escanteio e ainda aproveitou para pôr fim na primeira etapa.
A Seleção estava começando a fazer seu primeiro bom jogo na Copa e eu começava a acreditar na classificação e numa possível ida à final. Qual foi a minha surpresa quando, no 2o tempo, apenas a Holanda voltou a campo.

No intervalo das quartas de final, entretanto, sobrou no vestiário holandês o que faltou no brasileiro: um técnico capaz de manter sua equipe tranquila e preparada para vencer a partida. Enquanto a Holanda voltou a campo determinada a inverter o placar, o Brasil retornou apático e sumiu ao levar o gol de empate aos 8 minutos. Eu já havia comentado sobre a Holanda bater rapidamente as faltas sofridas, tentando pegar o adversário de surpresa (em uma jogada desse tipo, Robben tentou enganar o Brasil fingindo não ter batido um escanteio, mas o Brasil não é pentacampeão por acaso e, obviamente, não caiu no truque). Não deu outra. Sneijder cobrou uma falta rapidamente, tocando para Robben, que devolveu para Sneijder cruzar uma bola que acabou indo direto pro gol (na verdade, com um leve desvio na cabeça de Felipe Melo).O time que tinha sobrado no primeiro tempo simplesmente desapareceu no segundo. Não teve calma para fazer o segundo gol e só conseguia parar o ataque holandês com falta.
Em outra jogada de bola parada, um escanteio aos 23 minutos, o Brasil sofreu o gol da virada. Era o momento de alguém fazer como Didi em 58 que, após sofrer um gol na final contra os donos da casa, pegou a bola no fundo da rede e a levou ao centro do gramado calmamente para dar a saída, tranquilizando seus companheiros. Mas é muito da minha parte querer que algum jogador da seleção atual fizesse como Didi, que a maioria nem deve saber quem é.
Após o segundo gol da Holanda, o Brasil perdeu a cabeça de vez. Felipe Melo, em particular. O meio-campo, que havia queimado minha língua, se redimiu do lançamento para o gol e voltou a ser o que sempre foi e o que todos, menos Dunga, esperavam dele na Copa: um botinudo que a qualquer momento seria expulso num lance infantil.
Já falei que, morrendo de medo de Robben, Michel Bastos passou o jogo tentando parar o holandês nas faltas. Quando não conseguia, era Felipe Melo que ficava na cobertura. Numa dessas disputas, o volante brasileiro derrubou o atacante holandês em falta merecedora de cartão amarelo. No entanto, não satisfeito, Felipe Melo cravou as travas de sua chuteira na coxa do holandês, que estava no chão. O juiz não teve dúvidas e sacou o cartão vermelho direto. Eu e toda a população brasileira levantamos o cartaz de "eu já sabia". O único surpreso foi Dunga.

Abro um parêntesis para falar sobre o mais contestado titular da seleção.
Não conheço uma única pessoa que aprovasse a escalação de Felipe Melo no meio de campo brasileiro. Reencarnação de Dunga, o volante é extremamente limitado e, assim como o técnico que o adora, confunde garra com violência, vontade com grosseria, desarme com falta. Extremamente destemperado, nunca mostrou em campo a técnica ou a maturidade para vestir a amarelinha. Mas Dunga o tomou como protegido e defendeu o volante de todas as críticas merecidamente recebidas. Após os dois últimos amistosos da seleção, já na África, a imprensa esportiva brasileira insistiu no fato de que Felipe Melo corria sérios riscos de prejudicar o Brasil em um jogo decisivo, cometendo alguma falta grosseira, ou uma agressão gratuita, e sendo expulso em um momento crucial. Mas Dunga estava "de mal" com a imprensa e, cabeça-dura, teimou com o volante.
190 milhões de brasileiros levantaram as mãos aos céus para agradecer quando saiu a notícia de que Felipe Melo estava machucado. No lugar dele no jogo contra o Chile, Ramires teve ótima atuação. Porém, imaturo e inexperiente, tomou o segundo cartão amarelo, em sua segunda falta desnecessária na competição. Não fosse suspenso para a partida seguinte, certamente teria conquistado a vaga de titular. Mas Felipe Melo se recuperou da lesão e não tivemos chance de conferir se Josué ou Kleberson se sairiam bem como Ramires.
Felipe Melo ainda teve a cara de pau de, na zona mista, dizer à imprensa que o juiz exagerou no cartão, pois havia feito apenas "uma falta normal de jogo". A falta em si não foi das piores, mas Felipe esqueceu que há 32 câmeras espalhadas pelo campo e ao menos uma delas gravaria a imagem do pisão dele em Robben.
Não vou nem entrar em detalhes sobre Felipe Melo ter marcado o primeiro gol contra da seleção brasileira em Copas do Mundo, pois acho que o goleiro Júlio César deveria ter saído do gol gritando que a bola era dele, socando a cabeça de Felipe junto com a bola (mas Júlio tem créditos de sobras e a falha é totalmente perdoável, até porque, com o gol, o jogo voltava a estar empatado). Também prefiro nem comentar sobre a falha de marcação do volante que, no escanteio que originou o gol da virada, deixou o baixinho Sneijder livre para cabecear pro gol. Afinal de contas, é histórica a dificuldade do Brasil com jogadas de bola aérea (2 gols de cabeça de Zidane em escanteios na final de 98; eliminação também diante da França na Copa passada, em falta batida (olha ele aí de novo) por Zidane, para finalização de Henry, após falha coletiva da defesa brasileira), e a cabeçada para trás de Kuyt, antes de a bola chegar a Sneijder, dificultou ainda mais a jogada para a zaga brasileira.

Voltando ao jogo... após sofrer 2 gols em jogadas de bola parada, o Brasil tinha tempo de sobra pra igualar ou reverter o placar, mas lhe faltava tranquilidade, principalmente após ficar com um jogador a menos. Robinho e Kaká ainda tentavam jogadas individuais, mas a Holanda se fechou e ainda partiu pra cima da Seleção. A impressão que ficou foi a de que não sofremos uma goleada comente porque a Holanda teve pena do Brasil. Em algumas oportunidades, Robben e Sneijder pararam na entrada da grande área e pareceram não saber o que fazer com a bola, dando tempo de a defesa brasileira se recompor. Luís Fabiano mostrou ser apenas um bom e eficiente centroavante, e não um craque, do tipo que decide nos momentos mais cruciais, pois desareceu quando mais se precisava dele. Tentando dar eficiência ao ataque para empatar o jogo, Dunga substituiu o camisa 9 por Nilmar faltando 13 minutos para o fim do jogo, porém deveria ter tirado um jogador de marcação para a entrada do 3o atacante, tornando a Seleção mais ofensiva.
No melhor lance do Brasil no 2o tempo, o craque apareceu. Mas, como não estava em sua melhor forma, errou. Kaká arrancou e partiu pra cima da defesa holandesa, mas cortou pro lado errado, e acabou tendo seu chute interceptado. Já Robben e Sneijder não brilharam, mas foram decisivos.
Mais uma vez, a Holanda não jogou bonito, mas jogou bem. E venceu. Mais uma vez, o Brasil jogou mal. Mas dessa vez perdeu.

Mesmo que o Brasil vencesse a Holanda e passasse pelo Uruguai, acho pouquíssmo provável que a Seleção conseguisse uma vitória sobre a Espanha ou a Alemanha na final.
E há males que vêm pra bem. Já imaginou se o Brasil conquistasse a Copa no fim das contas? Teríamos q aturar o Dunga se achando, mais do que já se acha, por ter vencido uma Copa jogando mal e feio, com um time sem nenhuma criatividade. E ainda correríamos o risco de um legado duradouro desse futebolzinho de quinta categoria (ou seria "de resultado", Dunga?) no Brasil.

Ah... e que fique claro que não foi a nulidade brasileira no 2o tempo o único resposável pela eliminação do Brasil da Copa. A Holanda, novamente, não encantou, mas jogou muito bem. Principalmente após se recuperar do golpe de sofrer um gol no início do jogo e depois da bronca motivacional que deve ter recebido do técnico no intervalo.

2 comentários:

  1. Eu não poderia expressar melhor a minha opinião! :)
    Espero que esse fiasco que, segundo muitos, foi o mais sentido por uma seleção brasileira, sirva de lição para a CBF voltar a prestar atenção no futebol, e não somente no négocio que isso virou. Que encontre líderes que inspirem e estimulem um time construído desde as nossas categorias de base; que cresceu profissionalmente dentro do seu elemento - a criação de jogadas - para aquele momento, não somente pra se tornar milionário na Europa. Porque senão vou continuar achando que nem a próxima Copa deve ser conquistada e que, se isso acontecer, não foi por mérito do nosso futebol...

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  2. Palavras de Felipe Melo na zona mista: "se eu quisesse, teria quebrado a perna dele. Tenho força pra isso, mas ele continuou no jogo. (...) Foi uma falta normal, não é que eu dei um soco na cara dele."

    Ou seja, na opinião dele, pra tomar cartão vermelho, deve-se ou dar um soco na cara ou quebrar a perna do adversário.

    Ninguém queria a eliminação do Brasil. Preferia que o Felipe Melo e o Dunga calassem a minha boca, mas já que fomos eliminados, pelo menos nos resta, na boca, esse sabor acre-doce. Eu, você, Ronaldinho Gaúcho, a imprensa (em especial o Paulo Vinícius Coelho)e toda a torcida brasileira rimos por último.

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