domingo, 4 de julho de 2010

A receita de erros de Dunga

Todos os jogadores que passaram pela zona mista na 6a feira deram entrevistas dizendo q o grupo estava muito unido. Gostaria de saber desde quando união ganha jogo. O que ganha jogo é talento, entrosamento, garra, chute a gol.
Dunga exigiu de seus comandados apenas comprometimento. Não exigiu que jogassem futebol. O comprometimento tão valorizado por Dunga levou à África do Sul jogadores como:
Kleberson - reserva no fraco time do Flamengo, mas, que, como quebrou o braço jogando pela Seleção (em uma fase em que estava apresentando um bom futebol no time carioca, mas não o suficiente para ajudar na conquista de uma Copa do Mundo), acabou sendo convocado para aliviar a culpa de Dunga. Na cabeça do treinador brasileiro, a culpa de Klberson estar na reserva do Flamengo, apresentando, novamente, o futebol medíocre que lhe é característico, era da recuperação da fratura ocasionada em amistoso da seleção.
Doni - 3o goleiro da Roma, Doni não senta nem no banco do time italiano. Na última temporada, Doni participou de apenas 9 jogos pelo time. Assim como com Kleberson, Dunga acredita que a reserva de Doni se deve ao fato de o goleiro ter enfrentado a direção da Roma e, contrariando orientações do clube, ter se apresentado à seleção para a disputa de alguns amistosos. Na volta à Itália, Doni foi punido com a reserva. E de lá nunca mais saiu. Júlio Sérgio, o brasileiro que o substituiu, tornou-se o novo intocável do time italiano, fazendo defesas espetaculares. Ou seja, na Roma, Doni é (2o) reserva de outro brasileiro! E Dunga nunca nem cogitou convocar Júlio Sérgio.
Michel Bastos - meia-direita do Lyon, foi convocado para a lateral esquerda titular da seleção. Alguém pode me explicar?
Gilberto - convocado para ser o substituto de Michel Bastos, Gilberto, com 34 anos, joga como meio de campo no Cruzeiro, tendo feito uma temporada bem ruizinha pelo time mineiro. Mesmo quando jogava na lateral, posição da qual se aposentou 4 anos atrás, por causa da idade avançada, nunca foi grande coisa.
Gilberto Silva - depois de se tornar reserva no Arsenal, foi contratado pelo Panathinaikos. Agora é reserva no time grego. Titular do meio de campo da seleção e, quando da ausência de Lúcio, capitão do time.
Felipe Melo - era um jogador ruim no Flamengo, foi um jogador ruim no Cruzeiro, passou por times pequenos da Europa, como Mallorca, Racing Santander e Almería, até ser contratado pela Fiorentina. Fez uma boa temporada pelo campeonato italiano, e Dunga decidiu convocá-lo. Jogou todos os jogos da Copa das Confederações e alguém inventou que era bom jogador. Ele, Dunga e os dirigentes da Juventus acreditaram. Foi contratado a peso de ouro pelo clube de Turim. Na última temporada, foi eleito o pior jogador do campeonato italiano, tendo recebido 11 cartões amarelos e 2 vermelhos.
Elano - Joga no Galatasaray, 3o colocado no último campeonato turco (que só tem 3 times de peso). Volante de marcação, joga no time de Dunga como meia armador.
Julio Baptista - depois de ser reserva do Real Madri e do Arsenal, agora é reserva na Roma, onde atua como atacante. Foi convocado para ser reserva de Kaká, meia armador e único homem responsável pela criatividade no time do Brasil. Enquanto isso, Ronaldinho Gaúcho, titular do Milan, está curtindo férias.

Uma equipe com 7 volantes (caso também consideremos o Julio Baptista meio-campo marcador, posição em que ele atua melhor, já que não tem nenhuma criatividade para armar jogadas e pouco talento para finalizações) e 1 meia armador. Ah... e nenhum lateral esquerdo.

Fora isso, Dunga ainda contrariou sua própria convocação.
No jogo contra a Coréia do Norte, Dunga colocou Daniel Alves no lugar de Elano. Daniel é, originalmente, lateral direito, mas é considerado o "coringa" da Seleção, podendo jogar tb no meio de campo ou na lateral esquerda. O reserva de Elano, Ramires, entrou no jogo no lugar de Felipe Melo.
Contra o Chile, Dunga colocou Nilmar, atacante que se movimenta bastante e arma as jogadas, assim como Robinho, no lugar de Luís Fabiano, centroavante. Kaká, por sua vez, foi substituído por Kleberson, reserva de Elano, e Robinho deu lugar a Gilberto, que atua como meio-campo, mas foi convocado para ser o lateral esquerdo reserva da Seleção.
Na última partida, contra a Holanda, nova substituição esquisita de Dunga, que, precisando empatar o jogo, tirou o único centroavante em campo, Luís Fabiano, pra colocar Nilmar.

A razão usada por Dunga para explicar a não convocação de Ronaldinho Gaúcho, Marcelo, lateral esquerdo do Real Madri, e Pato, atacante que fez excelente início de temporada no Milan, até passar a sofrer com seguidas contusões, foi o tal comprometimento. Ronaldinho pediu dispensa da seleção em 2007, preferindo tirar suas primeiras férias em 4 anos (Ronaldinho disputara a Copa América 2004, a Copa das Confederações 2005 e a Copa do Mundo 2006, no período em que, normalmente, os jogadores que atuam na Europa estão de férias), e isso incomodou o técnico Dunga. Ronaldinho ainda foi convocado para a disputa das Olimpíadas de Pequim em 2008, em que o Brasil fez uma péssima campanha (terminou com a medalha de bronze após tomar um baile da Argentina na semifinal), e alguns jogos das eliminatórias, mas desde abril de 2009 o gaúcho nunca mais foi chamado. Marcelo e Pato tb fizeram parte do time medalha de bronze em Pequim e, de uns tempos pra cá, sumiram das listas da Seleção, nem nenhum motivo aparente. Quando fez a convocação final para o time que disputaria a Copa, Dunga disse que esses jogadores tiveram muitas oportunidades, mas não as aproveitaram.
Eu gostaria de saber, então, quais foram as oportunidades aproveitadas por Grafite, Michel Bastos e Kleberson. Grafite jogou 20 minutos no último amistoso da Seleção antes da lista final dos convocados. Michel Bastos fizera 3 jogos pela Seleção antes de ser oficializado como lateral esquerdo titular para a Copa. Já Kleberson, depois da boa fase vivida em 2002, voltou a jogar pela Seleção sob o comando de Dunga em junho de 2006, quando esteve presente em 3 partidas. Em agosto, no seu 4o jogo, quebrou o braço e só voltou agora, na Copa. Adoraria saber o que esses 3 jogadores fizeram em campo nessas poucas oportunidades que tanto encantou o técnico da Seleção. Ah... tinha esquecido... o Dunga não convocou a equipe que disputou a Copa baseado no futebol apresentado pelo jogadores, mas no comprometimento deles com a Seleção. Então qual foi o comprometimento que eles tiveram, tendo sido convocados tão poucas vezes?

É, Dunga... acho que a receita pra ganhar uma Copa do Mundo não é o tal comprometimento do qual vc tanto falou. Será que jogar futebol adianta?

Não faço parte do grupo que fez campanha para a convocação dos jovens Ganso e Neymar. Acho que não se pode basear uma convocação para Copa do Mundo em jogos de campeonato regional. Esse garotos realmente vêm jogando um bolão, mas, sinceramente, contra o Sertãozinho, até eu. Ok ok... Eles tb jogaram muito na Copa do Brasil, só que os únicos times decentes que o Santos enfrentou nessa competição foram o Atlético Mineiro e o Grêmio, não vencendo nenhum dos dois tão facilmente como vinha fazendo contra os Remos e Naviraienses da vida, apesar das boas atuações. Acho que Ganso e Neymar certamente têm lugar na seleção brasileira, mas mereciam, ao menos, ser testados antes de disputar uma Copa. No entanto, eu era totalmente a favor das convocações de Ronaldinho e Alexandre Pato.
Só que o Dunga preferiu um time recheado de volantes a uma equipe criativa. Tudo bem, não tem problema. Se o que ele queria na Copa era uma seleção especializada em marcação e desarme, poderia ter levado Lucas, do Liverpool (que teve bastante atuações na seleção de Dunga e tb fez parte do grupo medalha de bronze em Pequim, mas deixou de ser convocado há um tempo); Denílson, do Arsenal, jovem promessa que vem tendo excelentes auações pelo time inglês; Alex, ex-Internacional e agora no Spartak Moscou, que até chegou a ser chamado por Dunga algumas vezes, mas, ao que tudo indica, o técnico não gostou do que viu; ou Hernanes, do São Paulo, que não voltou a mostrar o bom futebol que ajudou o São Paulo a ser campeão brasileiro em 2008, mas certamente é muito melhor que Josué, Gilberto Silva, Felipe Melo ou Kleberson. E, na armação, Diego, ex-Werder Bremen e atual Juventus, apesar da má fase no clube italiano, certamente é bem melhor que Júlio Baptista. Pelo menos é titular no seu time. Até o próprio Michel Bastos fez um ótima temporada no Lyon como meia armador (não lateral esquerdo!!!).

Dunga achou que Copa do Mundo era como Copa das Confederações ou Copa América. E, até certo ponto, a nossa Copa foi. O Brasil conquistou a Copa América em 2007 jogando mal e feio. Perdeu o primeiro jogo para o México e ganhou do Chile no segundo. Depois, passou pelo fraquíssimo Equador com sufoco. Nas quartas, uma goleada em cima do freguês Chile, com bela atuação de Robinho. Nas semis, um empate suado com o Uruguai e a vaga na final nos pênaltis. O título veio sobre uma Argentina medrosa, que perdera os últimos 2 títulos que disputara contra o Brasil e entrou em campo extremamente nervosa.
Já na Copa das Confederações, ano passado, em momento algum o Brasil teve de enfrentar um adversário de peso. A campeã mundial Itália já estava em franca decadência, e os EUA, de quem o Brasil sofreu para vencer na final de virada, nos fez o favor de eliminar a Espanha.
Na Copa do Mundo, o Brasil perdeu para o primeiro adversário decente que enfrentou. Um time que sofre para vencer a Coréia do Norte e ainda toma um gol da pior seleção do Mundial não merece ser campeão do mundo.

Dunga também adora mencionar essa tal dicotomia "jogar feio e ganhar x jogar bonito e perder". Adoraria saber de onde ele tirou a idéia de que o que se faz ganhar ou perder uma partida de futebol é jogar um futebol feio ou bonito. O que se faz ganhar um jogo de futebol é jogar bem, não necessariamente bonito. O mesmo vale para perder e jogar feio.
No entanto, uma das coisas que torna o futebol um esporte tão fantástico é exatamente o fato de ele ser provavelmente a única modalidade esportiva em que se pode jogar bem o tempo inteiro, mas perder o jogo em uma falha boba, ou, no caso contrário, jogar muito mal, mas acabar vencendo. Esse foi o caso, por exemplo, da primeira partida da Espanha nesta Copa. A Espanha não jogou bonito, mas jogou muito bem. E perdeu. Passou o jogo inteiro buscando o gol e teve várias oportunidades de marcar, mas acabou não fazendo. A Suíça, timinho que joga feio e mal, teve apenas uma oportunidade, e marcou. Suíça 1 x 0 Espanha.
Dunga acha que jogar bem é sinônimo de jogar bonito. Não é. Jogar bem é o que a Holanda vem fazendo na Copa. Não encantou em nenhum jogo, mas vem jogando bem. E não perdeu uma partida sequer. Já a Alemanha, vem jogando bem e bonito. Mas uma coisa não necessariamente remete à outra.
E também não é sempre que se joga bem e ganha. O Brasil de 82 jogava bem, bonito e perdeu a Copa. O Brasil de 94 jogava bem, feio, e ganhou.
Dunga queria ganhar a Copa jogando feio, como fez em 94, mas esqueceu de jogar bem. A seleção de 2010 não encantou em momento algum, nem engrenou. Foi melhorando aos pouquinhos, muito aos pouquinhos para uma competição que tem apenas 7 jogos. Demorou 4 jogos pra finalmente começar uma partida jogando bem, como fez contra a Holanda. E demorou apenas 15 minutos pra desaprender tudo de novo. A seleção de 2006 pelo menos jogou bem em uma partida (contra o Japão, com o time reserva, mas jogou bem).

Outra analogia adorada por Dunga e pela imprensa esportiva brasileira é entre as seleções de 94 e de 2010. Dunga queria ser campeão em 2010 como foi em 94, jogando feio. Vamos, então, ajudar o (ex) técnico brasileiro e comparar as duas equipes.
Em 2010 tivemos um excelente goleiro (o melhor do mundo, apesar da falha contra a Holanda) e a melhor dupla de zaga do mundo. Em 94, o goleiro também era muito bom e a dupla de zaga, apesar de reserva (Ricardo Gomes se machucou antes da competição, e Ricardo Rocha durante), fez uma Copa impecável. Aldair estava no auge de sua carreira e Márcio Santos nunca mais jogou o futebol apresentado naquela Copa.
Na direita, Jorginho, assim como Maicon, era um dos melhores na sua posição, e foi, assim como Maicon, um dos responsáveis pelas melhores jogadas do Brasil. Já na esquerda, em 94 Leonardo fez uma excelente Copa até ser expulso no jogo contra os EUA. Branco, titular original da posição, fez um golaço contra a Holanda, mas passou em branco (sem trocadilhos) o resto da Copa. Já Michel Bastos.... cadê Michel Bastos? Alguém já encontrou?
No meio de campo, realmente não tínhamos criatividade. Mauro Silva e Dunga eram bons no desarme, e Zinho e Mazinho (que substituiu Raí, escalado fora de sua posição) tentavam, mas pouco criavam. No entanto, qualquer um dos quatro substituiria muito bem Felipe Melo, mesmo 16 anos depois. Sem contar que não faltava a nenhum deles vontade de mostrar serviço, garra e determinação, o que não se pode dizer dos volantes atuais.
Único homem de criação do meio de campo atual da seleção brasileira, Kaká começou a Copa muito mal, mas foi se encontrando aos poucos. Não foi nem sombra do craque eleito melhor do mundo em 2007, porém foi um dos poucos que tentou alguma coisa do meio pra frente. Só que não adianta tentar sozinho.
E não podemos nem começar a comparar Bebeto e Romário com Robinho e Luís Fabiano. Bebeto fez na Copa algumas das melhores partidas de sua vida. O entrosamento com Romário era algo de outro mundo. Fico com lágrimas nos olhos quando lembro do gol feito contra os EUA, em pleno 4 de julho, em que, após marcar, Bebeto dá a volta por trás do gol e abraça Romário com as palavras "eu te amo" saindo de sua boca. E Romário foi um dos melhores centroavantes da História do Futebol, o "gênio da grande área", segundo Cruyff, outro gênio e seu treinador na época, no Barcelona. Já Robinho.... Se jogasse metade do futebol que ele acha que joga, entraria para a História apenas como um bom jogador. Talento ele tem, mas tem muito mais marra que qualquer outra coisa. Alguém que chega numa Copa do Mundo dizendo que quer ser o craque da Copa não tem a menor chance de concretizar seu desejo (seria a maldição do comercial da Nike?). E Luís Fabiano é um ótimo atacante, mas é injusto tentar compará-lo a Romário, ou Ronaldo, ou até mesmo Careca. O Fabuloso é apenas nossa melhor opção de ataque na fraca safra pela qual estamos passando.
Tá bom pra vc, Dunga?

Já que estamos fazendo comparações, há duas outras coisas que tinha de sobra nas seleções passadas e das quais eu sinto muita falta nos últimos tempos. Para mencionar apenas as equipes vencedoras, tanto em 94 quanto em 2002, o Brasil chegava nos estádios tocando seu sambinha tradicional no ônibus, com direito a cavaquinho, pandeiro e outros instrumentos, que não podiam faltar na bagagem do time. A descontração,a felicidade e a alegria eram visíveis. E, no final das partidas, havia sempre algum jogador a passear pelo campo carregando a bandeira brasileira, orgulhoso. Em 94, quando o jogo terminava, eu já ficava procurando Romário, na tv, enrolado na bandeira do Brasil.
Nas duas últimas Copas, o Brasil desaprendeu a sambar. Agora, todos os jogadores descem do ônibus de cara fechada, com seus fones de ouvido e seus iPods, cada um ouvindo o que quer, sem a menor interação. E, quando o jogo acaba, meia dúzia de aplausos, troca de camisas e todos partem de volta ao vestiário. A sensação que fica é de que eles estão apenas cumprindo com suas obrigações. Não parecem estar animados por disputar uma Copa do Mundo, não se mostram orgulhosos de defender seu país, não demonstram empolgação em estarem realizando um sonho. Acho que os jogadores de hoje não devem mais sonhar em ganhar uma Copa, como sonhavam os jogadores de não tão antigamente assim.

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