As duas seleções que vinham apresentando o melhor futebol da Copa fizeram uma partida que entrou na lista dos melhores jogos da Copa. A tal "final antecipada".
A Alemanha não jogou contra a Espanha o mesmo futebol que apresentou contra Argentina ou Inglaterra. Em parte, porque a Espanha não deixou. Em parte, porque finalmente a falta de experiência dos jovens alemães pesou. O jogo da Espanha se baseia na posse de bola. O dos alemães, nos rápidos contra-ataques. Parecia que seria uma mistura perfeita. E realmente foi, pro lado espanhol. Os alemães não conseguiam tirar a bola da Espanha para armar seus letais contra-ataques e, apesar de fazerem uma boa partida, foram dominados pela Fúria. Era só uma questão de tempo até que a superioridade espanhola refletisse no placar. O que Puyol ajudou a fazer já no fim do jogo.
Pelo lado da Espanha, Del Bosque finalmente cansou de esperar Fernando Torres entrar em forma e decidiu começar a partida com 11 jogadores, colocando Pedro para formar a dupla de ataque titular com Villa. O jovem barcelonista sentiu o peso da titularidade e não brilhou tanto quanto nos jogos em que entrou no meio do jogo, mas, mesmo assim, teve mais presença que Torres. Porém, o destaque espanhol é mesmo o conjunto. E, neste jogo, o conjunto foi essencial na parte defensiva. Ao mesmo tempo em que mantia a posse de bola, a Espanha marcava o time alemão, não dando a eles a oportunidade de armarem qualquer tipo de jogada.
Já pelo lado alemão, o jovem Özil, que, juntamente com Müller, ausente por suspensão (e que fez muita falta), vinha sendo o destaque do time e o principal responsável pela armação de jogadas da Alemanha, foi completamente anulado pelo excelente Busquets, o que deu a calma e o espaço para que a Espanha tocasse a bola e tentasse o gol. A marcação alemã também funcionou, mas Schweinsteiger não conseguiu ser tão brilhante quanto nas partidas anteriores - até por causa da maior qualidade do adversário e, principalmente, do meio de campo do adversário.
As chances de gol realmente não foram muitas - um pouco mais para a Espanha que para a Alemanha -, mas, mesmo assim, o futebol jogado pelas equipes foi de encher os olhos. E o único tento da partida acabou sendo marcado numa jogada ensaiada. No início do jogo, a Espanha já havia tentado um lance parecido, com Puyol chegando de trás para cabecear após cobrança de escanteio, mas foi somente aos 28 da segunda etapa que a jogada deu certo. Xavi bateu escateio. Piqué subiu de um lado e Sergio Ramos de outro. Os dois deram uns passinhos pra trás, abrindo espaço para Puyol, que chegou como um foguete e cabeceou forte para o fundo da rede. Vale a pena catar um vídeo dessa jogada na internet pra reparar como a movimentação da equipe espanhola é toda perfeitamente ensaiada. No fim da partida, o jovem Pedro ainda perdeu uma oportunidade de ouro para garantir a vitória, aos 37 minutos, se enrolando com a bola e com os dribles e acabou sendo desarmado na entrada da área, com Villa livre ao lado, pedindo a bola para fazer o segundo gol espanhol.
O jogo foi mesmo 1 a 0. Como foram todos os jogos decisivos da Espanha na 2a fase da Copa. Esse é o estilo de jogo espanhol. Manter a posse de bola e tentar jogadas que possam resultar em gol. Nem sempre dá certo, como, por exemplo, contra a Suíça. Mas, em uma partida com 25, 30 chutes a gol, eventualmente uma bola (normalmente saída dos pés de Villa) entra. E o 1 a 0 fica de bom tamanho, já que o adversário não consegue trocar passes no meio de campo com a facilidade que a Espanha o faz. Busquets, um dos melhores jogadores da Copa, e Xabi Alonso protegem a ótima zaga formada por Piqué e Puyol (que eu nunca achei que joga muito bem, mas se superou nesta Copa, independemente do gol decisivo), que joga tranquila. Se, por algum acaso, o jogador adversário consegue passar por esses quatro, tem sempre Casillas no gol. Tática vencedora. E a Espanha vai para a final com um pouco mais de favoritismo que a Holanda. A equipe faz menos gols, mas se mostra mais segura nas partidas. Seria uma final inédita, e, qualquer que fosse o vencedor, o título seria merecido.
Um pequeno adendo para falar dos dois maiores clubes espanhóis: Real Madri e Barcelona. Nos últimos anos, os dois times tiveram estratégias bem diferentes. Enquanto o Barça investiu na fabricação de talentos, o Real não valorizou as pratas da casa e tentou se tornar vitorioso por meio de grandes contratações. Só tentou, pois não conseguiu. Nos dois últimos anos, ninguém na Terra apresentou um futebol mais bonito, mais eficiente e mais vitorioso que o Barcelona. Dos 11 titulares da Espanha na semifinal contra a Alemanha, 7 eram blaugrana. Se vc tirar o Villa, contratado junto ao Valencia logo antes do Mundial, eram 6 barcelonistas em campo: Piqué e Puyol (a zaga), Busquets, Xavi e Iniesta (3, dos 4 jogadores de meio-campo) e Pedro. Mais da metade do time. Dos outros 4, 3 eram do Real: Casillas, criado no clube, Sergio Ramos, vindo do Sevilla, mas jogador do Real desde os 19 anos de idade, e Xabi Alonso, veterano contratado pelo clube ano passado.
Na política de contratações sem critério do Real Madri, houve uma fase em que estavam em alta os jogadores holandeses: Sneijder, Robben, Van der Vaart, Huntelaar, Drenthe, Van Nistelrooy... Mas quando Florentino Pérez voltou ao clube e deu início à "Era Galacticos II", contratando, a peso de ouro, Cristiano Ronaldo, Kaká e Benzema, os holandeses ficaram sem espaço e foram vendidos a preço de banana. Sneijder foi brilhar na Internazionale de Milão, onde, logo na sua primeira temporada, ganhou a tríplice coroa: Campeonato Italiano, Copa da Itália e Liga dos Campeões da Uefa. Robben foi ser campeão no Bayern de Munique: Campeonato Alemão e Copa da Alemanha, além de vice na Liga dos Campeões. Huntelaar, que nunca concretizou a promessa de futuro craque, foi ser reserva no fraco time do Milan. E Nistelrooy, já "velho" e após seguidas lesões, foi retomar sua carreira no Hamburgo. Ficaram no clube espanhol Drenthe e Van Der Vaart, ambos reservas. O Real disputou o título espanhol com o Barcelona rodada a rodada, mas ficou para trás depois de perder de 2 a 0 para seu maior rival em casa. E ainda foi eliminado da Liga dos Campeões, sonho de consumo de Florentino Pérez, pelo Lyon, sendo obrigado a assistir Sneijder e Robben disputarem o mais importante título interclubes do mundo em sua casa, o estádio Santiago Bernabéu.
Enquanto isso, o Barça tb fez algumas contratações de peso (Henry e Ibrahimovic), mas quem brilha mesmo no Camp Nou são os jogadores de casa: Pedro, Bojan, Victor Valdés, Piqué, Puyol, Xavi, Iniesta, Busquets, Jeffren e Messi, que não é espanhol, mas joga no clube desde os 13 anos de idade. Nem todos são catalães, mas todos foram criado nas chamadas "canteras" do clube, e se identificam demais com a ideologia do Barça: futebol vistoso, ofensivo, movimentado, com posse de bola, troca de passes, constante troca de posições. Essa ideologia, ou estilo de jogo, teve início na década de 70, quando Rinus Michels, treinador da Laranja Mecânica em 74 e do tricampeão europeu Ajax, foi contratado pelo clube, sendo logo seguido pelo craque Johan Cruyff. E o Barça a mantém até hoje. Com craques do Barcelona, a Espanha vem ganhando praticamente todos os títulos de categoria de base que existem e mostra que a geração talentosa que encantou na Euro 2008 e na Copa 2010 não é mero acaso. A Espanha se tornou uma grande potência no futebol mundial, e essa realidade não deve mudar tão cedo.
É para Florentino Pérez parar e pensar sobre a maneira como gere o maior clube do mundo. E para os torcedores espanhóis agradecerem pela Catalunia fazer parte da Espanha.
O título, Joana! O título!!!
ResponderExcluirDevidamente consertado. Valeu, pai!
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